COMO ATAQUES NA INTERNET PODEM SER “GOTA D´ÁGUA” EM CASOS DE DEPRESSÃO

COMO ATAQUES NA INTERNET PODEM SER “GOTA D´ÁGUA” EM CASOS DE DEPRESSÃO
Morte de blogueira do Rio de Janeiro levantou discussão sobre cyberbullying, depressão e suicídio

DA REVISTA ÉPOCA

A morte de uma blogueira do Rio de Janeiro nesta segunda-feira mobilizou internautas e levantou uma discussão sobre cyberbullying, depressão e suicídio. A história envolvendo a jovem começou se tornar conhecida quando, no domingo, ela contou em uma rede social que o noivo havia terminado o relacionamento um dia antes do casamento. E que manteria a cerimônia mesmo assim, casando-se “consigo mesma”. O episódio gerou uma série de ataques a ela, que, no dia seguinte, tirou a própria vida.

O suicídio, como explicam especialistas, não é um comportamento isolado, mas multifatorial — envolvem uma série de aspectos, como um transtorno mental como a depressão. Nesse sentido, uma situação, como ataques sofridos na internet, pode ser a “gota d’água”, um desencadeador, que se soma a um histórico. Ainda assim, psicólogos e psiquiatras enfatizam a importância de não julgar ou apontar uma causa específica diante de situações que só a pessoa conhece. Tirar qualquer conclusão sobre o que determina ou não um suicídio intensifica o sofrimento de família e amigos que ficam.

“A execração pública através das redes pode ser o que chamamos de ‘fator precipitante’, que faz com que a pessoa tome a decisão de tirar a própria vida. Mas não podemos, e nem devemos, determinar que foi isso quando há um caso desses”, disse Carlos Aragão Neto, psicólogo e especialista em prevenção e posvenção do suicídio. “Não é todo mundo que sofre um ataque desses que tira a própria vida. Antes desses fatores, que podem ser ainda o fim de um relacionamento ou uma falência, por exemplo, há sempre alguma questão anterior.”

RESILIÊNCIA

O psiquiatra Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Psiquiátrica da América Latina, chama atenção para o efeito devastador que tais ataques na web podem ter em alguém que não está bem psiquicamente e sem a capacidade interna de enfrentar aquilo. Diante de uma situação de pressão extrema, quadros de transtorno mental podem se intensificar, e lidar com isso depende da resiliência de cada um, aponta. 

“As pessoas se escondem atrás das mídias sociais e agridem as outras. É de uma maldade sem tamanho. Essa agressividade, um ato de racismo ou homofobia, tudo isso maltrata intensamente. E lidar com isso depende da resiliência, da capacidade de se adaptar às situações. Uma pessoa pode não suportar esse quadro de pressão”, pontuou o superintendente da Associação Brasileira de Psiquiatria.

Algo tão comum atualmente, a exposição na internet abre as possibilidades de julgamentos injustos e críticas. “Quando está no pedestal, está exposto a ser idolatrado e criticado. Se não tiver resiliente, perde o controle. Se um jovem quer ser um digital influencer, tem de ser muito bem resiliente”, afirmou Fábio Barbirato, psiquiatra infantil da Santa Casa.

Barbirato também destaca que o ambiente digital, apesar de ajudar pessoas a exporem o que estão sentindo, pode, por outro lado, trazer informações perigosas sobre automutilação e suicídio, além de estimular essas práticas. Para isso, a atenção de pais e responsáveis pode ser determinante. “A faixa etária mais propensa a cometer suicídio é entre 14 e 24 anos. Se o jovem começa a se isolar, ter perda de prazer, de interesse no que gostava antes, e os pais percebem essa mudança de atitude, eles têm de estar mais ativos.”

De acordo com a Academia Americana de Psiquiatria da Infância e Adolescência, estima-se que até três milhões de jovens entre 6 e 17 anos vão apresentar sintomas de depressão. Até 80% experimentam pensamentos suicidas, e 35% tentarão o suicídio. Isso, segundo Barbirato, chama atenção sobre como o assunto deve ser identificado de maneira precoce. Assim, a procura por orientação profissional “sem estigma” agirá na prevenção.